- Alô.
- Quem está falando?
- A Ana... – pausa – Quem é?
- A Paula.
- Ah! Oi Paula, aqui é a Carol!
Pode parecer conversa de louco, mas não é. Se você não tem um nome composto, talvez não entenda, mas se tem – e não tenta omitir algum deles, descoberto apenas quando pegam seu RG – possivelmente entenda do que estou falando.
Como todos sabem, nomes são dados para se defi nir e distinguir as pessoas e também as coisas. Nomes próprios levam letras maiúscula e geralmente distinguem os indivíduos burocraticamente. Mas, em um mundo com sete bilhões de habitantes, é também óbvio que a medida não tem sucesso. Assim, adicionamos ao primeiro nome, o sobrenome. Na verdade, o principal responsável por nos defi nir em um grupo. Aliás, tão importante que com exceção do Brasil - onde o primeiro nome predomina sobre o sobrenome e este muitas vezes só ganha destaque quando ganha caráter de ‘apelido’ - geralmente ele ganha a cena em conversas formais.
Bem, como uma exímia brasileira, fi ca claro assim que estou aqui para falar do primeiro nome. No meu caso, primeiro e segundo nomes. A começar pela apresentação, sempre tive dificuldade em responder à simples pergunta ‘qual o seu nome?’.
Hesito por um instante, penso se digo ‘Ana’, ou ‘Carol’. Na dúvida, aprendi a ser mais formal: ‘Ana Carolina’. Mas, as pessoas não gostam de pronunciar dois nomes - bem, se isso parece uma constatação leviana, ao menos eu não gosto de ouvi-los juntos: me lembra a infância, quando uma amiga pronunciava cada sílaba com uma força tamanha a fim de demonstrar a sua insatisfação com algum ato. A verdade é que depois de pronunciá-los em conjunto por cinco vezes, sempre vem uma pergunta ainda mais difícil: “você
prefere Ana ou Carol?”.
prefere Ana ou Carol?”.
Quer saber? Não sei. Sempre atendi pelos dois nomes. Afinal, são parte de mim, da minha assinatura e de todos os documentos que me acompanham, não causando nenhum estranhamento. O mais difícil, hei de admitir, é me lembrar a preferência de cada um e eis a explicação para o constante diálogo inicial: quando a voz abafa ou o aparato tecnológico distorce o timbre, fica difícil saber com quem estou falando e caio na tentação de sugerir.
Hoje, aprendi que para causar menos confusão, é importante que as pessoas saibam que tenho dois nomes, embora me chamem apenas por um. Evita aquele constrangimento dos recém conhecidos: ‘ será que entendi o nome errado?’.
Mas as confusões de ser dono de um nome composto não acabam por aqui. Há quem acredite na energia, no poder de vibração de sua pronúncia. Ainda nessa linha, inúmeros sites defi nem seus signifi cados. Assim, ainda que para o menor dos entendedores, é bem claro que um nome sozinho não tem o mesmo significado que dois juntos e, ao encurtá-lo, a pessoa opta por uma ‘energia’ – na verdade, prefiro dizer ‘personalidade’ - , apenas.
Falo disso mais como curiosa do que como conhecedora, porém, a vivência tem me mostrado que há alguma relação. O meu primeiro nome é mais frágil que o segundo e, mesmo que de forma inconsciente, as pessoas demonstram sua expectativa quanto ao meu comportamento ao escolhê-los.
Há ainda motivos mais triviais como o fato de Carol ser mais comum. E outros pessoais, como o fato de Carol ser tão comum que todo cara ‘já teve uma Carol na sua vida’. Enfim, no final, todo pretendente acaba optando pelo primeiro nome, aquele mais doce e meigo, enquanto os amigos apostam na dominação do segundo. Eu, divido meus dias com duas personalidades distintas que, ao que parece, nunca vão me deixar.
E estou certa de que isso não é um caso particular. Provavelmente muitas Marias Alguma Coisa sejam chamadas pelo ‘Alguma Coisa’ ainda que a mãe tenha escolhido o nome pelo ‘Maria’. Afi nal, os rumos dos nomes compostos é ainda uma incógnita. Enfi m, cada um com suas preferências e intenções, afinal.
Deixe a curiosidade bater na sua mente e conheça um pouco mais sobre o seu nome. Se você tem dois deles, melhor. Que tal tentar adivinhar quão relativo é seu nome em relação à sua personalidade?
(Crônica publicada na Revista Exemplo® Variedades - Ed. 46. Autor: Ana Carolina Lahr)
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