Mulheres,
quando inimigas, demonstram de longe a falsidade e inveja enrustida
pairado no ar. Quando declaradas, então, os olhos fuzilam e o veneno
chega a escorrer pelas laterais dos lábios, que sorriem distantes só
para fazer pose de quem é a melhor.
O adjetivo engraçado é insuficiente
quando se observa essa batalha silenciosa e traiçoeira.
Mas quando superam essa competição, chego a ter orgulho das companheiras que são. Elas não têm medo de pedir um colo para chorar durante infinitas horas. Elas não hesitam em andar de mãos dadas nas ruas. Elas riem alto, falam sem pausas, mudam de assunto, retornam ao anterior, reclamam, riem novamente, olham vitrines, fazem charme para os que passam e, em momento algum, lhe cortam o barato dizendo que não agüentam mais reclamações, olhar as mesmas vitrines por cinco horas ou insinuam que estás dando moral para qualquer um. Elas se entendem sim, é verdade. Por isso, são capazes até mesmo de fazer momentos de pânico, inesquecíveis.
Como
sempre, a capital respirava agito. Eram seis horas da tarde e em meio à
poluição sonora e visual do centro de São Paulo estavam elas, ainda a
admirar com ar assustado o ritmo frenético que demandava aquela cidade.
O
gol branco era só mais um em meio ao tradicional congestionamento.
Tinham tirado o dia para passear pela “25 de Março”, uma rua
naturalmente instigante pelos tantos itens encontrados num espaço
relativamente pequeno. Imaginem agora esse passeio somado a cinco
mulheres desprovidas de homens.
Ninguém para acelerar o passeio, se
não fossem as nuvens escurecendo o céu a cada minuto. Ainda assim,
permaneceram em pé até que as portas se fechassem. Com o porta -malas
cheio, tudo que desejavam era chegar em casa a tempo de tomar um banho e
assistir a novela das oito. Mas, como para a maioria das mulheres o
caminho desconhecido assemelha-se a um labirinto, o mapa que indicava a
saída parecia-lhes um tanto complicado.
- Vamos perguntar. Para ali ó. Para.
Além
de parar, elas precisavam de uma feição bem encarada. A TV instigara
nelas um preconceito visível em relação à cidade. Perguntaram para
dezenas de pessoas, mas a insegurança falava mais alto e sempre era
preciso confirmar o caminho na próxima esquina. Mulheres são mulheres,
lembrem-se. Elas não têm medo de perguntar, como o sexo oposto. Estes,
já dizia um livro que li há um tempo, jurariam até a morte não
estarem perdidos, ainda que não tivessem idéia de onde se encontravam.
Em fim chegaram à marginal Tietê. Restava a dúvida: seria aquele o sentido certo? É claro que não. Caipiras, em São Paulo, têm o dom de errar.
Em fim chegaram à marginal Tietê. Restava a dúvida: seria aquele o sentido certo? É claro que não. Caipiras, em São Paulo, têm o dom de errar.
- Pergunta para o caminhão ai do lado.
- Moço...
Lá vinham mais trezentas explicações. Todas elas abafadas pelo 'radar' que começara apitar incessantemente.
- Bonito, heim?...
E o alvoroço se fez. Todas olhavam para trás e se punham a dar aquelas risadinhas imparáveis e irritantes.
- Eu também quero ver, cadê, cadê?
Até
mesmo a motorista esticava o pescoço, pedindo licença para analisar os
passageiros do caminhão ao lado. Por um momento se esquecera do transito
que a deixara em pânico. Acenou, só para fazer graça – e não tenham
dúvidas, a culpa é sempre deles!
- O que você está fazendo? Não é esse! É o caminhão do lado direito!
E se puseram a rir sem parar mais uma vez. A barriga doía.
- Amanhã nem preciso de abdominais...
Sentiam-se
no shopping, a observar todos e sorrir para os que demonstrassem
estilo, beleza ou simpatia, assim como faziam quando tinham quinze anos.
Era bom demais poder estar naquela companhia mais uma vez, porque só
tinham mais certeza, a cada dia, que ninguém melhor que as amigas para
resgatar momentos esquecidos na vida a dois e sem espaço depois dos
filhos. Elas precisavam se sentir vivas. Elas precisavam de amigas,
definitivamente. E também de inimigas, para fazê-las mais belas.
Chegaram.
Tarde demais para a novela. Mas amanhã já se atualizariam: manicure,
mercado, academia. Em algum lugar sempre teria uma delas para mantê-las
informadas. Restava-lhes o banho quente e a noite bem acompanhada. Dali a
cinco horas o despertador tocaria. Coador, café. Toalha, mesa. Carro,
trabalho. A rotina retornaria. E o encontro das amigas já tinha uma nova
data. 2013. O encontro anual – e inesquecível- das amigas.
(Autor: Ana Carolina Lahr)
(Autor: Ana Carolina Lahr)
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