“Toda
mulher deveria ter seus momentos de amor. Parar em frente ao espelho e
fazer amor com si mesma, com os olhos. Se desejar”. Ela estava assim. Frente a frente com o
espelho, não parava de pensar o quanto estavam a perder as mulheres que
passam a vida reprimindo seus desejos, ignorando o tesão, evitando o
conhecimento.
Já era madrugada e o sono não chegava. Decidiu tomar um banho para relaxar. Abriu gaveta de lingerie e notou que as calcinhas estavam todas no roupeiro. Olhou para o lado esquerdo e só então recordou-se das rendas. Eram as calcinhas para as noites de amor. Aquelas, que usara para satisfazer os desejos dos namorados que fizeram por merecer.
Primeiro desdobrou algumas, só para lembrar como eram. Fazia tempo que não eram lembradas. Desde que estava sozinha tinha se aventurado por alguns corpos, mas nenhum que durasse tempo o suficiente para fazer do sexo casual, um ritual dos apaixonados.
Ela não era dessas mulheres que têm o sexo como segundo plano. O ato era tão necessário em sua vida quanto o amor. Não costumava se privar de desejos incompreendidos e condenados por tantos outros. Alguns momentos lhe permitiam aproveitar do excesso de libido entre seres ardendo de desejo, e puro desejo. Mas, ela sabia o quão melhor era o sexo com amor. Entre tantas vantagens dos relacionamentos fixos, ela recordara que essa era mais um das delícias do amor. Não era sexo, era “fazer amor”. Era um tesão além das mãos nos seios, da perna entre perna. Era livre arbítrio. Era se sentir totalmente à vontade. Era querer satisfazer o parceiro e ser capaz de gozar somente ouvindo seu gemido de prazer. Era muito mais do que encostar numa pele pensando se aquele toque teria sido bem-vindo. Era fazer amor apaixonado. Afinal, quando se namora, aprende-se como excitar sem ter vergonha de ousar - ou ser julgado.
Depois de desdobrá-las, sentiu vontade de coloca-las. Fazia tempo que não se vestia assim para ser admirada. Ultimamente tinham lhe comido com tanta malícia e falta de ternura que ela realmente sentia falta ver nos olhos dos amantes o amor à flor da pele.
Pois vestiu. Uma. Depois a outra. Desfilou para o espelho. Olhou-se e imaginou se alguém ainda desejaria vê-la assim. Ela desejava. Ela se desejava, e isso era muito satisfatório.
Por final, já era tarde. Guardou todas no lugar de onde tirou e desejou que não
passasse mais tanto tempo a ponto de se esquecer das rendas floridas.
Enquanto a ducha quente escorria pelo seu corpo, olhava para o box. Lembrara-se da última vez que fizera amor de verdade. No chão, tendo as chamas do desejo afobadas pela água no chuveiro. O vidro embaçado. Excesso de calor. Amor.
(Autor: Ana Carolina Lahr)
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