Conversas
de elevador sempre rendem crônicas sobre as bizarrices da vida
cotidiana. A crítica é a mesma, “bom dia” e “tchau” descrevem na íntegra
a conversa no recinto.
Como não ser assim? Morei por muitos anos em prédios, portanto frequentei, e ainda frequentei elevadores por várias vezes ao dia. Confesso que na maioria delas torci para não cruzar com ninguém - e ainda torço durante uma visita ao prédio. Não é questão de má educação, mas mirar o chão evitando cruzar olhares é tão constrangedor quanto ficar a encarar o companheiro sem pronunciar qualquer palavra. É como se tratasse de um espaço alheio e que você tivesse que deixá-lo o mais rápido possível.
Como filmes, elevadores também sofrem com seus “clichês”: o tempo está sempre contado, o brasileiro sempre atrasado, o pobre é sempre coitado, e o tempo está sempre nublado.
Mas, de forma geral, eles parecem mesmo ser feitos para não “dar brecha”
às conversas. Se o acompanhante de “viagem” é desconhecido, após o
“oi” pouco tempo se tem para criar um laço de coleguismo, ou de
vizinhança, na pior das hipóteses.
Digo isso por diversos motivos. Primeiro: ao entrar no elevador, você
precisa reparar em qual andar ele descerá. O fato é que, por maior que
seja a distância, ao pensar num assunto diferente da tempestade de ontem
e do frio de hoje já se passaram pelo menos dois andares. Pelas contas,
já estamos no terceiro. Se ele lhe parecer amigável, comentar o jogo de
ontem pode soar interessante. No meu prédio, por exemplo, a mulher
do síndico resolveu fazer da área da churrasqueira uma arquibancada para
assistir aos jogos do Brasil na Copa. Depois do fiasco que foi o nosso
time, comentar sobre o seu “não-desempenho” certamente permitiria ao
acompanhante desabafar por uns cinco minutos. Mas, não temos tempo para
isso. Os andares passam e o tempo vai diminuindo ainda mais.
Algo que me alegra quase tanto quanto um
elevador vazio são as crianças. Fico menos incomodada quando estão nele.
Você faz um elogio, pergunta o nome, pega na mão pra brincar e ... TRIM
... Chegamos. Nada de puxar assunto por obrigação, ou reclamações para
ocupar o tempo.
Por outro lado, tão incomodo quanto “pegar carona” com
um casal aos beijos, é entrar num elevador no meio de uma conversa. Fica
impossível não ouvir, mesmo quando não o queremos. Nesse caso,
agradeço: ainda bem que o tempo é curto demais.
De
qualquer maneira, você não está a salvo. Ao encontrar a mesma pessoa toda manhã no quinto
andar, fica proibido não puxar um assunto qualquer, mesmo sabendo que
ele será interrompido na terceira ou quarta frase. Quem sabe no próximo
encontro vocês continuam de onde pararam, ou começam uma nova discussão?
Mas, eu insisto, elevadores não “dão brecha” às conversas. Mesmo soando interessante, o papo é obrigatoriamente cortado no térreo. E no meu caso, foi, por quatro anos interrompido no sexto andar - houve uma época que isso acontecia no primeiro e o papo era sempre o mesmo: "que folga a minha, né?" - uma maneira descotraida de olhar para o vizinho e deixar claro que tenho sim, preguiça.
Bem, se a conversa parecia produtiva, só mesmo
convidando o vizinho para entrar no seu apartamento. O que dificilmente
eu faria, já que sempre sai atrasada e deixei as coisas jogadas pela
casa. Um local não digno de visitas, eu diria, em especial para
recém-colegas de elevador, aos quais me esforçei a cada manhã para
parecer uma vizinha exemplar.
Ah! Desculpe, já ia me esquecendo. Qual é o seu andar?
(Autor: Ana Carolina Lahr)
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